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Prosperando em um mar de incertezas

Nas sondagens de expectativa sobre o futuro dos negócios que entidades de classe realizam periodicamente, um dado recorrente sempre chama a atenção: a dicotomia quase paradoxal entre a percepção que o empresariado tem da economia do país e aquela que projeta para os próprios negócios. De um lado, prevalece uma visão sombria sobre o ambiente macroeconômico; de outro, emerge uma confiança resiliente na capacidade das empresas de crescer, adaptar-se e gerar resultados, mesmo em cenários adversos.

Um levantamento recente realizado pela ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil ilustra bem esse contraste. Segundo a pesquisa, 78% dos dirigentes avaliam que a economia piorou nos últimos meses, enquanto mais da metade (55%) projeta um cenário ainda mais desafiador para 2026. Entre os fatores citados estão uma combinação negativa de variáveis políticas, econômicas e institucionais, marcadas pela falta de previsibilidade. A política fiscal, a volatilidade da condução macroeconômica, o ambiente institucional e o papel do governo como agente econômico aparecem de forma recorrente como fontes de preocupação.

Apesar desse diagnóstico pouco animador sobre o país, a fotografia muda quando o foco se desloca para dentro das empresas. No mesmo levantamento, uma parcela significativa dos entrevistados afirma ter registrado melhora no desempenho de seus negócios em 2025. Além disso, 38% se declaram otimistas ou muito otimistas em relação ao futuro de suas organizações. O dado mais eloquente, no entanto, está na expectativa de crescimento: 62% preveem aumento de faturamento em 2026, ao passo que 43% afirmam estar ampliando os investimentos em marketing. Em um ambiente macroeconômico percebido como estagnado ou instável, o setor empresarial demonstra disposição para agir, diferenciar-se e se reinventar.

Essa dissociação entre o macro e o micro revela um traço estrutural do espírito empresarial brasileiro: a capacidade de separar, ao menos parcialmente, aquilo que foge ao controle daquilo que pode ser efetivamente gerenciado. Diante de um cenário externo imprevisível, os dirigentes tendem a concentrar esforços em variáveis internas como estratégia, eficiência operacional, formação de equipes, inovação e relacionamento com o cliente. Não se trata de ignorar o contexto econômico, mas de reconhecer seus limites de influência e, a partir daí, agir com pragmatismo.

Esse comportamento ajuda a explicar a postura cautelosa em relação a investimentos de longo prazo, geralmente mais sensíveis a fatores como taxa de juros, estabilidade regulatória e previsibilidade institucional. Ao mesmo tempo, evidencia uma busca ativa por alternativas capazes de gerar resultados no curto e médio prazos. Ganha destaque, nesse movimento, o investimento em capacitação de pessoas, a exploração de nichos de mercado, o desenvolvimento de novos projetos e, em alguns casos, o renovado interesse pela internacionalização como forma de diluir riscos e acessar novas fontes de receita.

Conviver com incertezas não é novidade para o empresariado brasileiro, mas esse fenômeno se intensificou nos últimos anos. Após duas grandes recessões — uma em meados da década passada e outra durante a pandemia —, somadas a ciclos de instabilidade política e econômica, as empresas deixaram de tratar o ambiente imprevisível como exceção. A incerteza passou a ser a regra. Nesse contexto, sobreviver e prosperar deixou de depender de cenários ideais e passou a exigir flexibilidade, rapidez de decisão e capacidade contínua de adaptação.

O resultado é que, apesar das fragilidades do quadro macroeconômico — como inflação elevada, juros persistentemente altos, aumento do déficit público e crescimento do endividamento federal —, os números da economia real seguem sendo sustentados pela resiliência das empresas. São elas que, no dia a dia, preservam empregos, buscam ganhos de produtividade e encontram caminhos para crescer, mesmo quando o ambiente externo parece pouco favorável.

Na prática, os dirigentes empresariais têm demonstrado senso de realidade e foco estratégico. Em vez de paralisia diante da volatilidade, observa-se uma postura orientada à execução, ao ajuste fino dos modelos de negócio e à proximidade com o mercado. Ainda que o cenário permaneça desorganizado e sujeito a sobressaltos, o mercado brasileiro continua sendo um espaço fértil para a construção de oportunidades, sobretudo para quem consegue ler sinais, antecipar movimentos e responder com agilidade.

Embora frequentemente tratado como um clichê, o jargão de que toda adversidade carrega, em si, uma oportunidade ganha novo significado nesse contexto. Momentos de incerteza tendem a acelerar transformações, abrir espaço para novos modelos de gestão, estimular a inovação e redefinir a forma como empresas se relacionam com seus clientes. Para o empresariado que aprendeu a navegar em mares turbulentos, a instabilidade deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser, também, um campo de possibilidades.

 

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