O universo da longevidade é cheio de neologismos. As vezes por falta de nomes adequados para batizar uma nova situação ou perfil comportamental. Outras vezes por pura necessidade do marketing. É assim que idoso virou terceira idade, que virou sênior, que virou maduro, que virou longevo. E que agora virou NOLT.
Nolt é uma expressão recente. Apareceu pela primeira vez há poucos meses, em postagens no instagram e no whatsapp. Dizem que Nolt significa New Older Living Trend. Não demorou muito e os acadêmicos de primeira viagem que habitam o Linkedin criaram uma imensa “teoria” em volta disso. Um artigo publicado em dezembro afirma que “não é um movimento motivacional, nem uma tentativa de maquiar a velhice. É uma descrição fria de um fenômeno social: o modo de viver, consumir, trabalhar e decidir está sendo reorganizado por uma população mais velha, ativa e pragmática”. É um texto bonito. No entanto, ele é usado há anos para descrever o consumidor prateado.
Um outro articulista diz que “o tempo passa a ser tratado como ativo escasso. Nolts fazem menos concessões a rotinas inúteis, produtos confusos e discursos vazios, tirando proveito da eficiência adquirida com anos de tentativa e erro.”
O texto que circula no whatsapp tem várias versões, desde as compactas de um parágrafo até os textões. Como um todo, ele atesta que os “nolts” são pessoas que cuidam da saúde, da mente e das emoções. Viajantes, leitores, voluntários, criadores, líderes de grupos, mentores e aprendizes ao mesmo tempo. Encaram desafios com maturidade, mas também com coragem — aquela coragem que só quem viveu bastante desenvolve.
Por fim, uma jornalista cravou que o termo foi criado no universo do marketing para designar pessoas maduras que adotam um estilo de vida ativo, curioso e em constante evolução.
Eu tenho uma boa e uma má notícia a todos que, de boa fé, vem replicando este conceito. A boa notícia é que tudo o que está escrito acima é verdade. A má notícia é que não existe essa expressão NOLT. Isso é invenção de brasileiro, provavelmente por conta de um erro de entendimento de inglês
“New Older Living Trend” traduz-se por “Nova Tendência de Moradia para Idosos”. E isso tem uma razão de ser. A expressão foi usada em um site americano que vende condomínios para a terceira idade, em setembro do ano passado.
Mas alguém teve um entendimento diferente da expressão e traduziu New Older Living Trend por Nova Tendência de Vida para os Mais Velhos. Se a frase realmente estivesse falando de comportamentos, teria sido usada a palavra lifestyle, e não living.
E o NOLT veio daí?
Mais ou menos. Não existe a expressão NOLT em nenhuma publicação sobre longevidade, em nenhuma parte do mundo, exceto no Brasil. O existe no exterior, particularmente nos EUA e na França, é NOLD, um acrônimo para Never Old. A definição de Nold é exatamente isso que, de repente, virou NOLT no Brasil.
Em suma, fizeram uma mistureba de conceitos diferentes. Pegaram a definição de consumidor prateado, juntaram com a expressão never old, acharam uma frase solta em um site americano, criaram um neologismo, montaram uma teoria em volta e agora somos todos NOLT. Brasil, sil, sil no seu melhor.
E tem mais: é capaz da sigla pegar. Não há nenhuma informação falsa no conceito. É apenas uma construção nova agrupando coisas que estão aí há muito tempo.
Marqueteiros e consultores são craques em reempacotar velhas ideias e vender como se fosse algo novo. Mas, neste caso, parece que o NOLT é só um alienígena do futuro mesmo. Surgiu do nada. Ninguém sabe de onde veio nem pra onde vai. Só se sabe que é uma entidade superior, que incorpora toda a experiência acumulada pela raça humana e que determinará o futuro do planeta.
Como estamparão os americanos em nossas futuras moedas: “In Nolts We Trust”