Pesquisas e estudos produzidos ao longo dos últimos 2 anos tem revelado um quadro que surpreende muita gente: os milennials e a geração Z, ou seja, pessoas nascidas entre 1981 e 2012, são majoritariamente conservadores. Em contrapartida, os baby boomers tem maior inclinação à esquerda.
É um quadro curioso porque, historicamente, a população nasce liberal e vai migrando para o conservadorismo com o passar da idade. Existem inúmeros estudos – inclusive estatísticos – demonstrando esse fato. Como é possível então que a geração mais jovem seja mais conservadora do que as anteriores?
Uma pesquisa recente do PoderData revela que 68% dos brasileiros se declaram contrários à legalização do aborto. A análise por faixa etária indica que o apoio ao aborto é maior entre os brasileiros mais velhos. Entre pessoas com mais de 60 anos, 25% se diz contrária à prática. Já na faixa de 25 a 44 anos — que reúne grande parte dos millennials e da geração Z — a rejeição é significativamente mais elevada: cerca de 70% dos entrevistados afirmam ser contrários à liberação.
O padrão observado no Brasil também aparece em pesquisas internacionais. Dados divulgados em 2023 pelo estudo Global Views on Abortion, realizado pela Ipsos, indicam que a divisão geracional sobre o tema não segue o padrão tradicional de maior liberalismo entre os mais jovens. Na média global, 62% dos baby boomers se dizem favoráveis ao aborto. Entre os millennials e integrantes da geração Z a oposição chega a 55%.
Uma outra pesquisa, realizada em dezembro e 2025 pela AtlasIntel, em parceria com a Bloomberg, investigou como diferentes gerações se posicionam no espectro político. Entre os integrantes da geração Z e os millennials, 52% afirmam ser de direita ou centro-direita. Já entre os baby boomers 57% dizem se identificar com posições de esquerda ou centro-esquerda.
Essa possível mudança de orientação entre os jovens também aparece em outros indicadores culturais e sociais. O relatório Ipsos Global Trends, publicado em janeiro, detectou uma crescente inclinação conservadora em diferentes países, inclusive no Brasil. De acordo com o estudo, 57% dos homens da geração Z brasileiros afirmam desejar que “as coisas voltassem a ser como no passado”. O percentual supera o observado entre baby boomers, indicando uma busca por maior estabilidade social.
Esses dados podem ser interpretados como reflexo de um contexto marcado por incertezas econômicas, rápidas transformações tecnológicas e polarização política. Para muitos jovens, o presente é percebido como um período de instabilidade, dificuldades de inserção no mercado de trabalho, alto custo de vida e mudanças aceleradas nas normas sociais. Nesse ambiente, mensagens que prometem ordem, tradição ou retorno a valores considerados mais estáveis tem apelo.
O próprio relatório da Ipsos sugere que um presente desafiador e um futuro percebido como incerto estimulam parte da juventude a procurar alternativas fora da realidade atual. Em muitos casos, isso se traduz em maior receptividade a discursos conservadores ou a propostas que enfatizam valores tradicionais, identidade cultural e segurança social.
O fato dessas duas gerações estarem ansiando por mais estabilidade não deveria causar espanto. Foi exatamente o que aconteceu no pós-1968. Aquele período se assemelha muito ao que vivemos hoje:
- uma gigantesca revolução de costumes
- a expansão do movimento feminista
- a pauta LGBT começando a se tornar visível
- o forte movimento de direitos civis (muito focado na eliminação dos preconceitos e da segregação racial)
- a guerra fria no seu auge
- a guerra do Vietnã matando civis
- ditadores para todo lado (tanto no Brasil quanto na Europa porque as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia só foram cair em meados dos anos 70)
- uma enorme revolução tecnológica, com a transmissão de TV por satélite se tornando rotina (ampliando enormemente o acesso à informação)
- e as gerações com posições políticas conflitantes.
Na década de 70 houve uma calmaria, quando a geração da época assimilava o que de bom os anos 60 propuseram enquanto jogava no lixo os excessos, os radicalismos e as pautas malucas. Estamos no meio de um cenário similar:
- incertezas geopolíticas
- economia brasileira (e, em parte, a mundial), em frangalhos
- falta emprego
- 81% das famílias estão endividadas
- há uma completa perda de confiança da sociedade nas instituições
- ninguém sabe se a profissão aprendida hoje existirá amanhã
- a revolução tecnológica é brutal
- a informação deixou de vir das fontes tradicionais oligopolistas (jornais, revistas e TVs) e hoje é produzida de forma diversificada e distribuída
- a intolerância é generalizada
- e ninguém mais sabe o que é certo e o que é errado.
O crescimento do conservadorismo não é um passo atrás. É a consolidação de tudo o que se andou para a frente e um bloqueio nos excessos e no radicalismo. Por mais “conservadores” que os milennials e a geração Z possam ser, ninguém está falando em reduzir direitos ou impedir a liberdade de expressão. O que todos querem é aquilo que a humanidade necessita desde os primórdios: um mínimo de estabilidade e previsibilidade. Isso vale para leis e ambiente econômico, mas vale também para relações humanas e trato social.
Não é muito difícil imaginar que teremos uns bons 10 anos de “tá bom, já deu, vamos voltar ao normal”. Só que esse “normal” incorpora muita coisa nova em nossos comportamentos que nós nem ousaríamos sonhar 15 anos atrás.
Assim funciona a vida: 3 ou 4 passos para a frente, para, respira, põe ordem na casa e prepara os próximos 3 ou 4 passos. Estamos no momento de por ordem na casa. Em todos os sentidos