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A ascensão do Paraguai como hub estratégico

A dinâmica industrial da América Latina atravessa um momento de reconfiguração ainda mais acelerado do que se observava poucos anos atrás. O Paraguai vem se consolidando de forma inequívoca como um polo de atração de capital produtivo brasileiro, não apenas como alternativa marginal, mas como componente estrutural das cadeias industriais regionais. Esse movimento reflete uma assimetria competitiva persistente entre os países do Mercosul. Enquanto o Brasil avança lentamente na implementação de sua reforma tributária — cuja transição completa se estenderá até a próxima década — o Paraguai mantém um ambiente de negócios marcado por simplicidade, previsibilidade e custos operacionais estruturalmente mais baixos.

Empresas brasileiras de diversos setores — têxtil, autopeças, eletroeletrônicos e bens de consumo — intensificaram sua presença no Paraguai entre 2023 e 2025. O movimento deixou de ser episódico e passou a configurar uma estratégia recorrente de otimização de custos e mitigação de riscos regulatórios. Não é só uma busca por menor carga tributária. Trata-se de uma resposta direta à compressão de margens e à perda de competitividade internacional da indústria instalada no Brasil.

A insegurança jurídica e a complexidade do sistema tributário nacional continuam sendo fatores centrais nesse processo. Apesar da aprovação da reforma tributária, a fase de transição prolongada, a convivência simultânea de regimes e a incerteza sobre regulamentações específicas mantêm elevado o custo de conformidade fiscal. Estudos recentes indicam que o Brasil segue entre os países com maior tempo gasto por empresas para cumprimento de obrigações tributárias, mesmo com avanços pontuais em digitalização.

A lei 14.789/23, ao alterar a tributação das subvenções de ICMS, elevou a carga efetiva de diversos setores industriais, especialmente aqueles altamente dependentes de incentivos estaduais. Na prática, muitas empresas passaram a enfrentar aumento relevante de imposto sobre lucro, o que pressionou ainda mais decisões de realocação produtiva.

Paralelamente, o Paraguai reforçou sua atratividade. O regime tributário conhecido como “10-10-10” permanece estável e competitivo, e o modelo de maquila ganhou ainda mais adesão. O imposto efetivo de cerca de 1% sobre o valor agregado continua sendo um diferencial difícil de replicar na região.

Além disso, fatores estruturais se mantêm decisivos. O custo de energia elétrica no Paraguai segue entre os mais baixos do mundo, sustentado pela geração hidrelétrica de Itaipu. Em um cenário global com diversas pressões por aumento de custos energéticos, essa vantagem se tornou ainda mais relevante para setores intensivos em consumo elétrico.

O custo da mão de obra e a menor rigidez das relações trabalhistas também continuam a favorecer o país. Embora haja desafios em qualificação, observa-se avanço gradual na formação técnica, impulsionado justamente pela entrada de empresas estrangeiras e pela necessidade de atender padrões industriais mais elevados.

Tudo isso favorece o movimento de nearshoring. Produzir no Paraguai permite manter proximidade com o mercado brasileiro, reduzir dependência de cadeias asiáticas e aumentar a previsibilidade operacional. Dados recentes indicam que a economia paraguaia tem apresentado crescimento sustentado, com forte contribuição do setor industrial vinculado à maquila. Esse avanço começa a gerar efeitos de aglomeração: fornecedores locais, serviços logísticos e infraestrutura se desenvolvem ao redor dessas operações, aumentando ainda mais a atratividade do país.

Do lado brasileiro, o custo sistêmico de operar no país — o chamado “Custo Brasil” — não para de aumentar, indo agora além dos tributos e burocracia e englobando insegurança regulatória, profunda fragilidade macroeconômica, infraestrutura desigual e, mais recentemente, instabilidade jurídica e institucional.

Nesse contexto, a tecnologia ganhou papel ainda mais central. O uso de inteligência de dados, automação fiscal e sistemas integrados de gestão internacional passou a ser pré-requisito para empresas que operam em múltiplas jurisdições. A decisão de onde produzir tornou-se cada vez mais orientada por analytics e simulações de cenários regulatórios e tributários.

A saída parcial de capital produtivo do Brasil não representa um enfraquecimento da pujança empresarial nacional mas sim uma reconfiguração geográfica da produção, à semelhança do que aconteceu com os EUA nas décadas de 80 e 90, que terceirizou parte significativa de sua produção de bens de consumo para a Ásia. Muitas empresas mantêm no Brasil atividades de maior valor agregado — como design, marca, distribuição e gestão — enquanto deslocam a manufatura para ambientes mais eficientes.

Ainda assim, o fenômeno acende um alerta relevante para o próximo presidente. A consolidação do Paraguai como hub industrial regional pode acelerar um processo de esvaziamento relativo da base manufatureira brasileira, afetando diretamente o número de empregos disponíveis, caso reformas estruturais não avancem com maior rapidez e profundidade.

Para investidores e dirigentes empresariais, já está consolidada a visão de que a resiliência corporativa depende da capacidade de combinar eficiência operacional com flexibilidade geográfica. A diversificação produtiva deixou de ser uma opção e passou a ser um componente estratégico essencial.

A integração produtiva no Mercosul entra, assim, em uma nova fase. O Paraguai não é mais apenas um destino complementar, mas um elo relevante na cadeia industrial brasileira. Esse movimento fortalece a competitividade regional como um todo, mas também impõe ao Brasil o desafio de reequilibrar seu ambiente de negócios para evitar que a migração produtiva se torne estrutural e irreversível.

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